Sem dinheiro e sem fama
De todas as coisas que nós poderíamos gostar, nós gostamos deste tal de Hardcore. Lembramos do nosso primeiro contato com ele, da primeira música, do primeiro show e do primeiro mosh. Dedicamos tempo e dinheiro a fundo perdido, acreditamos na mudança e na conscientização das pessoas. Cantamos em um coro enfurecido a ouvidos sem mais tímpanos, desgastados do som absurdamente alto. Ainda sim cantamos.
Ouvimos de pessoas algo do tipo, “porque que vocês ficam se batendo no meio do show?”, “essas letras de protestos não dão em nada”. E mais, quando se tem uma banda é comum ouvir, “ei, quando vão aparecer no Faustão?”, “já estão ganhando dinheiro com isso?”. Por que, me digam por que vocês ainda insistem em gostar desse tal de Hardcore?
Existe algo que não se pode medir. Há um sentimento intrínseco nessa batida rápida na caixa da bateria que nos une, algo que vai para além do material. É nesse lugar escuro e fechado, cercado de pessoas que mesmo desconhecidas se tornam íntimas naquele ritual de expurgar toda a raiva e o ódio que move corações, muda opiniões e derruba as construções de uma sociedade que precisa ser mudada. É lá que as ideias são manifestadas.
O objetivo nessa história é outro, muito mais importante do que chegar ao estrelato ou forrar os bolsos de dinheiro. Mas qual é então? É aquela pessoa que se divertiu no show, a outra que refletiu sobre a letra da canção, a menina que encontrou na música o correspondente ao seu sentimento e o individualista que pensou no coletivo e na sua postura como cidadão. É por isso que gostamos de Hardcore.
Quanto isso vale? Vale esse tal de Hardcore. Dinheiro e fama todos gostam, eu mesmo posso estar falando assim por não ter nem um nem outro. No entanto, de uma coisa eu tenho certeza, o Hardcore, esse tal de Hardcore que falamos, esse sim nunca pode e nem vai deixar de existir, nem pelo excesso nem pela escassez de dinheiro e fama.
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